SETENTA ANOS.
Viver 70 anos é carregar o tempo no corpo e na memória. É olhar para trás e perceber que a vida não passa em linha reta — ela dá voltas, acelera, freia, e às vezes deixa a gente parado no acostamento, só observando.
Lembro bem dos meus 50. Naquele tempo, tudo parecia ainda em construção. Henrique e Juliano,amigos do meu filho, ficaram tocando no meu aniversário, davam os primeiros passos, estudantes em Palmas, dividindo sonhos e incertezas com meu filho, Felix Junior. Era o começo de muita coisa. A gente não sabia quem ia chegar longe, nem por quais caminhos.
Vinte anos se passaram num piscar de olhos. Meu filho virou cardiologista, médico de terapia intensiva, nome respeitado em Palmas. Salvando vidas, sustentando responsabilidades que pesam mais que o próprio jaleco. Henrique e Juliano ganharam o Brasil, viraram voz conhecida, sucesso nacional. Cada um colheu o que plantou — com talento, esforço e também com o empurrão invisível do tempo.
E eu sigo aqui. Na mesma vida simples, antiga, sem manchetes, sem holofotes. Às vezes dá um aperto no peito, não de inveja, mas de comparação. A sensação de que o mundo andou rápido demais e eu fiquei. Mas viver 70 anos também ensina outra coisa: nem toda grandeza faz barulho. Tem vida que é alicerce. Que não aparece, mas sustenta.
Talvez minha história não tenha mudado de cenário, mas mudou de sentido. Eu fui o caminho por onde outros passaram. Fui testemunha de começos, abrigo de sonhos, chão firme enquanto o tempo corria. E isso, aos 70 anos, a gente aprende a reconhecer com mais calma.
Viver 70 anos é aceitar que sucesso tem muitos nomes. Alguns brilham. Outros permanecem. E permanecer, às vezes, é a forma mais silenciosa — e mais difícil — de vencer o tempo.
Felix Chaves
Parnaiba, janeiro 2026
Felix Chaves
Enviado por Felix Chaves em 10/01/2026