NOTÍCIAS DO LADO DE LÁ
Sempre digo isso meio sério, meio brincando, como quem joga uma garrafa no rio do tempo:
— Amigo quando você chegar do lado de lá, me dê notícias.
Não peço riqueza, nem salvação garantida. Peço só notícia.
Uma confirmação miúda, dessas que cabem no bolso do coração. Queria saber se tudo aquilo que a gente aprendeu a acreditar era verdade mesmo, ou apenas um remendo bonito costurado pra tapar o medo da morte.
Imagino o outro lado como uma continuação da estrada. Talvez sem poeira, talvez com sombra boa. Ou talvez nada.
Um silêncio grande, definitivo. E era isso que mais dói : não saber se a vida acaba ou se muda de endereço.
Às vezes penso
que a fé nasceu assim, da necessidade.
Um mundo velho, gasto, sem porteira, onde tudo entra e sai sem pedir licença. A crença seria só um jeito de não enlouquecer diante da injustiça, da perda, do fim.
Mesmo assim, acredito . Não por certeza, mas por escolha. Porque viver achando que tudo termina em pó é pesado demais. Então rezo baixo, converso com quem já partiu e espero , quem sabe, um sinal simples: um sonho estranho, um vento diferente, um aperto no peito sem explicação.
Se viesse a notícia dizendo que há outra existência, vou sorririr aliviado.
Se viesse dizendo que não há nada, aceito também. Porque a verdade, mesmo dura, dói menos do que a dúvida eterna.
Enquanto a resposta não chega, sigo vivendo como quem acredita.
E talvez seja isso, no fim das contas: a fé não é saber o que vem depois, é escolher esperança num mundo cansado — mesmo sem garantia de resposta.
Felix Chaves
Enviado por Felix Chaves em 03/01/2026