FÉLIX CHAVES
TUDO VALE A PENA, SE A ALMA NÃO É PEQUENA
Textos
SINA DE VAQUEIRO

  " Preparem seu coração,  pras coisas que vou contar, eu venho la do Sertão..."

Disparada / Geraldo Vandre.


Montei no Alazão ainda antes do sol se ajeitar no céu. Cavalo bravo, desses que só respeitam quem anda junto da poeira. Apertei o gibão no peito e segui mata adentro, guiado mais pelo instinto do que pelos olhos.
O sertão estava úmido, chuvinha miúda caindo sem pressa, dessas que não alagam a terra, mas encharcam a alma.
O cheiro de mato molhado se misturava ao couro do gibão. Cada galho que riscava o caminho parecia testar minha coragem, mas medo nunca foi coisa que me acompanhasse. Vaqueiro aprende cedo que parar é pior do que cair.
E eu ia, firme, sentindo o Alazão responder ao meu corpo como se fosse extensão de mim.
O boi do patrão tinha se desgarrado desde a madrugada. Bicho bravo, conhecedor das veredas, feito eu. Às vezes penso que a gente se parece mais do que imagina: sempre correndo, sempre fugindo de algum cerco invisível. A mata fechava, o cavalo suava, e eu seguia — porque essa é a lei não escrita do sertão.
Quando enfim encontrei o rastro fresco, entendi que não era só o boi que eu procurava. Era a confirmação da minha própria sina.
Nasci pra isso: correr atrás do que se perde, enfrentar o que é bruto, seguir mesmo quando o caminho não promete chegada. No sertão, ser vaqueiro é aceitar que a vida não se doma — a gente apenas aprende a montar nela.  
Felix Chaves
Enviado por Felix Chaves em 20/12/2025
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