ENDEREÇO CERTO
Uma vez, nas velhas épocas da minha passagem por Xambioá do Tocantins, numa daquelas tardes que escorrem lentas como caldo de cana, sentei pra conversar com meu amigo Tiquinho — filho da dona Zefinha, mulher rezadeira, de saia até o tornozelo e olhar que lia alma.
Depois de umas três doses daquele "caminha da roça" que queimava a garganta mas aquecia a memória, Tiquinho, com o olho já meio vesgo e o riso fácil, resolveu contar um "causo".
Tiquinho era valentão de carteirinha. Qualquer coisa era motivo pra puxar briga. Batia em três pra fazer nome e não gostava de sair da confusão sem deixar o outro cabra estendido no chão. A fama andava na frente dele — até as galinhas atravessavam a rua quando viam ele vindo.
Mas aí, um dia, um pião foi passando na frente da casa dele. Justo na hora em que Tiquinho tava no meio de um furdunço doméstico. Era ele e a mulher, e dessa vez quem tava levando a pior era ele. A mulher armada com um rodo de banheiro e a coragem de quem não aceita desaforo nem de marido valente.
O pião viu a cena, não se aguentou: — Uai, você não é o valentão da cidade? Fica aí apanhando da mulher, kkkkk!
Tiquinho então largou o rodo (ou melhor, se livrou dele), pulou pra fora da casa, pegou o pião pela gola e desceu-lhe a mão com gosto, enquanto dizia: — Cabra, eu apanho da minha mulher porque eu quero. Mas entra nessa briga pra você ver se não apanha de mim até esquecer seu nome!
E é assim a vida, meu amigo. Tem valentia que a gente guarda pra quem merece. Mulher brava a gente respeita. O resto… é só não abusar.
Felix Chaves
Enviado por Felix Chaves em 05/08/2025