A LUZ MENOR DO SOL
Hoje, o sol parece menos forte.
Não sei se é o clima, uma nuvem esquecida no céu, ou se é dentro de mim que a luz se apagou um pouco. Há dias em que até o tempo parece mais velho, arrastando os minutos como quem caminha com os pés pesados. E foi assim, nesse silêncio morno, que as lembranças começaram a voltar.
Elas não batem na porta, não pedem licença. Apenas voltam, inteiras e teimosas. A infância, com seus domingos longos e bicicletas barulhentas. As noites de insônia juvenil, em que eu sonhava ser tudo — poeta, herói, ou apenas alguém que fizesse sentido. Volta também a voz da minha mãe me chamando na cozinha. O cheiro de café recém-passado, os abraços que não sabia que seriam os últimos.
Fico pensando em quem fui. Se aquela versão de mim, que ria alto e acreditava em promessas de verão, teria orgulho do que sou hoje. E mais ainda: se o caminho que escolhi valeu a pena. A vida tem dessas perguntas que ninguém responde. A gente só sente.
A sorte? Essa parece uma velha conhecida que nunca mudou de roupa. Sempre do mesmo jeito: meio distante, meio displicente. Nunca me trouxe os grandes prêmios, mas também nunca me abandonou de vez. Foi sóbria. Comedida. E talvez isso tenha sido a sua forma de carinho.
A verdade é que não sei se fui feliz. Mas fui inteiro em cada passo. E talvez isso baste.
O sol ainda não apareceu por completo, mas há um calor suave no peito. Não de verão, mas de memória. E com isso, sigo.
Porque, mesmo quando a luz é pouca, ainda há luminosidade
Felix Chaves
Enviado por Felix Chaves em 17/07/2025